Destaque: Luiz Pacheco

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Um dos grandes males da nossa sociedade, sempre foi, é, e, sempre será, o reconhecimento do talento e do valor de alguns dos seus membros, apenas, após a sua morte.

Alguns poderão dizer que, infelizmente, outros, que, ainda bem que assim é, uma vez que, se assim não fosse, não existiriam pessoas como, o nosso, muito português, libertino, Luiz Pacheco, um exemplo perfeito, de todas as qualidades (ou defeitos, cabe ao caro leitor para si ajuizar), que, constantemente, são filtradas e excluídas, desta nossa sociedade, cada vez mais, mentalmente automatizada.

Sendo assim, eis que, no passado dia 5 de Janeiro, do presente ano, perdemos para o além, Luiz Pacheco, com 82 anos de idade, e, à boa maneira de funcionamento da sociedade, uma série de relatos sobre a sua conduta de vida e obras publicadas, surge de repente, como um verdadeiro explodir de vulcão.

No meio de tanta informação, é imperativo assumir-mos uma postura de imparcialidade, para, não corrermos o risco de, deixarmos o nosso pensamento, e a nossa visão, em particular das várias imagens transmitidas, do nosso libertino, sair influenciada.

Processo de selecção concluído, filtrada a vária informação disponível, eis que opto por escolher, aquela que, para mim, é a imagem mais adequada ao perfil de Luiz Pacheco, num texto de Estela Guedes, ficando aqui, desde já, o seu testemunho.

“Em 1997, Luiz Pacheco, que fez da mendicidade um modo de vida, estava principescamente instalado na Vila Máryah, uma luxuosa estância de repouso para idosos, em Palmela. Eu visitava-o de vez em quando por causa da edição de “Carbonários: Operação Salamandra – Chioglossa lusitanica Bocage, 1865”, que saiu na Contraponto, a sua conhecida editora, afecta ao Surrealismo. Raramente o encontrei sozinho, ele tem sempre muitas visitas, de modo que se cruzavam amigos, conversas e destinos. De uma vez deixámos passar a hora de saída e a porta foi fechada, encarcerando os forasteiros. Em vão se procurou o porteiro, nada, um táxi lá fora esperava, a palaciana residencial aninha-se num pinhal isolado, longe da povoação. Caía a noite, e se o taxista desistisse da espera lá teríamos de dormir com o Libertino que passeou por Braga, a idolátrica, o seu esplendor. De modo que, para aflitivos cárceres, fugas airosas, e foi mesmo pela janela, estilo Zé do Telhado, mas com aterragem de corpo inteiro, mais o saco dos livros desfolhados, no canteiro dos lírios, como convém nestes lances da nossa árdua vida literária.

A situação é suspeita, viola algumas normas sociais, morais até, mas os intervenientes sabem da sua intrínseca inocência, e só isso é fundamental: a moral é um colete de forças que o grupo dominante aplica ao dominado para salvaguardar a sua prepotência, mas o Bem e o Mal são completamente distintos e independentes disso – pode o Mal estar de mão dada com a moral e o Bem contra ela, como foi o caso.

Refiro-me a essa emblemática edição cujo 33º aniversário o TriploV comemora, no âmbito das suas actividades em torno do Surrealismo – O Libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor (Contraponto, 1970). No caso, a imoralidade reduz-se a uns palavrões, que são palavras que todos conhecemos e figuram nos bons dicionários, ao pecado dos maus pensamentos e a um acto sexual. Porém, a moralidade sexual que o livro violou em 1970 hoje já não vigora. Esse acto sexual cometido, único, pois todos os outros são apenas delírios da imaginação, é aquele que neste preciso instante o governo de Inglaterra tenta que as escolas ensinem ou promovam junto dos alunos, num desesperado esforço para que baixe a altíssima taxa de gravidez em menores – a masturbação.

E aqui estou eu a falar destas coisas, como se fossem importantes, e são. A moral muda consoante o grupo dominante e as necessidades do grupo social, o que não muda é a ética. Ora o livro não viola nenhuma ética, pelo contrário: as conversas no quarto da pensão, com o sargento, por exemplo, giram em torno da PIDE, do que se passava em “Angola-é-Nossa”, e o texto que o Libertino lhe passa para as mãos não é a “Filosofia da Alcova”, sim o “Depoimento de uma angolana”, sobre as atrocidades cometidas contra os negros, que tem vindo a ser reeditado juntamente com “O Libertino…”. À parte os devaneios de imaginação de um homem cuja libertinagem é quase só mental – e nas Bragas daquele tempo os pensamentos eram tão pecaminosos como os actos -, o espírito ocupa-se de livros, os livros que os portugueses não lêem, a vida acanhada em tempos de opressão, e até a tentativa de sedução das Super-Gèninhas se faz de forma letrada, com os bilhetinhos escondidos na cápsula das castanhas.

A libertinagem, nesse sentido de liberdade sexual sem mais, deixou de ser importante numa época – a nossa – em que as raparigas saem à noite e são industriadas pelos pais no uso de preservativos. O texto, agora, torna-se cómico nesse lado, rimos com gosto de certas situações. Não que tenha perdido a força, mas porque de facto a função do libertino foi a de mostrar quão ridículo era aquele puritanismo, simplesmente esse ridículo só é perceptível quando já não estamos sob o domínio da “idolátrica” – Braga, como símbolo da repressão que a Igreja sempre exerceu sobre o corpo, e desse labéu lançado sobre o prazer. Quanto ao regime, a propaganda salazarista reprimia a mente, a liberdade de pensar e desejar também, enquanto a sua élite se entretinha com os ballets rose. Sob a tirania, ninguém teria vontade de rir, o riso vem agora, em que há liberdade para ele. É claro que num país tacanho, de gente ferozmente agredida no corpo e na alma, não há espaço para D. Juan, Sade nem Casanova, apenas para um pobre diabo que deseja e não alcança – tudo lhe corre mal, e de fracasso em fracasso só lhe resta a solução onanista. É um libertino à escala do país que éramos, por isso tão perfeito retrato nosso que Júlio Moreira, posfaciador da primeira edição, considera que o texto nos dá uma imagem muito mais exacta da realidade portuguesa do que toda uma literatura que se pretende interferente.

Mudados os tempos, o que sobra de “O Libertino…” e de Luiz Pacheco? Sobra tudo, que eu saiba ele ainda não foi estudado como a sua obra merece, perdidos que temos andado nos meandros das querelas pessoais e sexuais. Luiz Pacheco é um escritor absolutamente singular, não só na nossa literatura como em termos gerais. Ele não é um Sade, um Casanova, e isso é importante: pelo contrário, é totalmente diverso. O papel tradicional do macho está subvertido, ele não é um representante do falocentrismo, e nesse sentido não é um agressor, é um agredido. Não é um conquistador, é um conquistado; não é um amante, é um amador. A personagem carrega toda a humilhação e frustração do país.

Tradição fescenina e maledicente encontramo-la entre nós e noutras literaturas desde as cantigas de escárnio, e não esqueçamos Bocage, mas Luiz Pacheco é muito diferente de Bocage, a sua veia quezilenta e debochada não se acomoda com nenhum parentesco. Surrealismo? Ele nega ter sido surrealista e é num texto surrealista que o afirma e mais: Deus o livrasse de tal – isto logo à entrada de “Pacheco versus Cesariny”. Pois sim. Acontece porém que “O Libertino”, como todos os outros textos de Luiz Pacheco, só teria sido possível na mundividência surrealista, à sombra da bandeira “poesia e liberdade”: vida e obra são a mesma coisa, o anti-herói de “O Libertino” é o próprio Luiz Pacheco, que à data, em 1965, andava nas carrinhas da biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian a distribuir livros pelas aldeias para alfabetização geral. O desprendimento, a coragem com que se fala daquilo que em nós é mais íntimo e privado, sem a máscara da personagem, a espontaneidade de um relato que não foi decerto fruto de escrita automática, mas aceitemos que foi redigido no dia a seguir ao dos eventos, isso também pertence à esfera de procedimentos do Surrealismo. Ou abjeccionismo, termo aliás usado no texto. E tudo o que se relata aconteceu? É bem possível que sim, por obra e graça de acasos objectivos que juntaram Braga, o Libertino e Angola-é-Nossa num mesmo texto que, só por isso, ganha um volume simbólico não alcançado realmente por obras de esquerda, muito mais direccionadas politicamente.”

Após a leitura, atenta, deste texto, aquilo que nos vem a cabeça, pelo menos a mim veio, provavelmente, poderá ser o materializado pela seguinte expressão, “O Luiz Pacheco é provavelmente o maior filho da puta, a pessoa mais corrosiva, mais intratável que há, mas eu gosto dele. Não sei porque mas gosto dele. O Luiz tem a capacidade de dizer o que pensa, de dizer mesmo tudo o que pensa, mesmo o que não poderia dizer(…)”,  presente, de resto,  na página web “luizpacheco.no.sapo.pt”.

 

The Future Is Unwritten

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Quatro são os anos, após a morte, daquele que foi, um dos mais influentes criadores de consciência social, e que, levou as suas palavras aos quatro cantos do mundo, através das palavras proferidas pela sua voz, cansada, de gritar contra as injustiças da sociedade.

Sejam muito bem-vindos, a mais uma edição do Global Beats. Falava-vos a pouco, de Joe Strummer, o mítico líder da banda inglesa “The Clash”. A emissão do Global Beats desta semana, é inteiramente dedicada a este senhor, que, após quatro anos desde o seu desaparecer físico para o mundo, “vê” a sua vida retratada no mais recente trabalho de Julien Temple, o “gravador”, das memórias criadas pelos pioneiros londrinos do Punk.

Em “The Future is Unwritten”, é-nos possivel sentir, a força, com que as palavras de Joe Strummer, conseguem gritar a sua mensagem, através das ondas sonoras que emanam na atmosfera de um mundo em declínio, e, ver Joe, não apenas como uma lenda ou um músico, mas também como um verdadeiro e autêntico comunicador contemporâneo.

Revelando-nos, de um lado, toda uma história associada ao punk, alias, existi ainda referência aos Sex Pistols, e do outro, a amizade que o ligava aos vários amigos que foi sabendo cativar, ao longo dos anos, este filme de Julien Temple, é uma autêntica homenagem, do ser fantástico, que foi Joe Strummer, antes, durante e depois dos The Clash.

God Save Punk Rock!

 

 

 

The Sex Pistols – The Big Awakenig

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O grupo punk britânico Sex Pistols anunciou o seu regresso aos palcos para uma apresentação única, no dia 8 de Novembro, na Brixton Academy, em Londres. O concerto marcará o 30.º aniversário de edição do mítico álbum “Never mind the bollocks, here’s the Sex Pistols”.

“Pode ser porque todos somos londrinos, mas os Sex Pistols não teriam existido sem esta velha e querida cidade de Londres”, declarou o vocalista do grupo, Johnny Rotten (cujo nome verdadeiro é John Lydon), ao anunciar o regresso da banda no site da revista NME. Os quatro membros originais do grupo – Rotten, Steve Jones (guitarra), Paul Cook (bateria) e Glen Matlock (baixo, mais tarde substituído pelo malogrado Sid Vicious) – vão tocar no tão esperado concerto.

Os Sex Pistols separaram-se em 1978, apenas três anos depois da formação do grupo, considerado um ícone da geração punk. A banda voltou a unir-se em 1996, mas não se apresenta ao vivo desde uma curta digressão de três semanas pela América do Norte, em 2003. O álbum “Never mind the bollocks”, que provocou muita polémica na época do lançamento, a 28 de Outubro de 1977, é considerado uma peça essencial da história musical britânica. Inclui, entre outras músicas, a versão ácida do hino britânico “God save the queen”, “Anarchy in the UK” e “Pretty vacant”. Chegou a disco de platina nos EUA. O CD foi relançado por ocasião do 30.º aniversário.

 

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